Setembro Azul traz conscientização, resgate histórico e luta pelos direitos da comunidade surda

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 5% da população brasileira têm algum nível de deficiência auditiva, o que representa 10 milhões de pessoas, dos quais mais de 2 milhões têm surdez profunda, ou seja, não escutam nada. Mesmo assim, a inclusão dessas pessoas ainda enfrenta desafios, a começar pela educação e comunicação. O Ministério da Educação aponta que apenas 12 mil professores no país têm formação em Língua Brasileira de Sinais (Libras), e a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) contabiliza cerca de 20 mil intérpretes.

Para trazer conscientização sobre o tema, o mês de setembro é marcado por uma série de mobilizações, eventos e campanhas promovidas pela comunidade surda no Brasil e no mundo. Conhecido como Setembro Azul ou Setembro Surdo, o período é dedicado a celebrar a cultura e as conquistas da população surda, além de dar visibilidade às suas lutas por acessibilidade, representatividade e inclusão social.

Desafios

Apesar do contingente expressivo de pessoas com deficiência auditiva, a garantia de uma educação de qualidade e bilíngue ainda é uma das principais pautas do movimento. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência prevê a oferta da Libras como primeira língua e a modalidade escrita do português como segunda língua em escolas bilíngues e inclusivas.

Escolas bilíngues com especialização em Libras desempenham um papel essencial no preparo de estudantes surdos para os exames de acesso ao ensino superior, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A campanha do Setembro Azul, nascida em 2011, segue firme até hoje. O movimento reforça que o acesso ao espaço público, à educação e ao reconhecimento da Cultura Surda não são privilégios, mas direitos conquistados a partir de anos de luta contra barreiras sociais e preconceitos.

Ressignificação da cor

A escolha da cor azul tem raízes na Segunda Guerra Mundial. Em 1933, o governo nazista da Alemanha instituiu a “Lei de Prevenção de Doenças Hereditárias”, promovendo a esterilização compulsória de pessoas com deficiência, o que incluía a surdez hereditária. Mais tarde, a partir de 1939, o programa secreto de eutanásia (“Operação T4”) resultou no extermínio de cerca de 275 mil pessoas com deficiência em câmaras de gás e em segredo.

Naquele período, os nazistas amarravam faixas azuis nos braços das pessoas com deficiência para identificá-las. Diante dessa memória, a comunidade surda ressignificou a cor. Hoje, o azul-turquesa é ostentado como um símbolo de orgulho, superação, resistência e memória daqueles que sofreram perseguições desumanas.

Mês de datas históricas

O mês de setembro também concentra diversos marcos históricos e datas de reflexão para a educação e para os direitos dos surdos. Uma delas é o Congresso de Milão, que aconteceu entre 6 e 11 de setembro de 1880. O evento proibiu o uso e o ensino das línguas de sinais, impondo o método oralista na educação. Mais de um século depois, em 9 de setembro de 2009, o Brasil viveu um movimento importante com a realização do Seminário Nacional em Defesa das Escolas Bilíngues para Surdos, que aconteceu em 25 dos 26 estados brasileiros.

Desde 1958, é realizada anualmente a Semana Internacional dos Surdos, entre os dias 20 e 26 de setembro desde 1958, pela Federação Mundial dos Surdos (WFD), com o objetivo de promover a cultura, a história e as línguas de sinais. Já o dia 23 de setembro é lembrado como o Dia Internacional da Língua de Sinais, e o dia 26 de setembro como Dia Nacional do Surdo, data que homenageia a fundação da primeira escola de surdos do país, em 1857, no Rio de Janeiro, o atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Por fim, o mês se encerra em 30 de setembro com o Dia Internacional do Surdo e o Dia Internacional do Profissional Tradutor e Intérprete.

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