Pelo menos um quarto das crianças brasileiras têm dificuldades alimentares

Durante a infância, é muito comum que as crianças apresentem problemas para se alimentar bem, seja por seletividade, consumo de ultraprocessados, ou outros fatores. Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), feita em 2021, estimou que de 25% a 45% das crianças com desenvolvimento normal têm alguma dificuldade alimentar. Essas questões podem trazer grandes problemas para a saúde e o desenvolvimento dos pequenos, a curto e a longo prazo. Por outro lado, existem estratégias que podem ser usadas para contornar essa situação.
O Prof. Dr. Fabiano Alexandria, médico pediatra e docente da Faculdade Tiradentes (Fits), aponta a seletividade alimentar como um dos principais problemas envolvendo a alimentação na infância. “A criança só aceita uns poucos alimentos, e muitos rejeitam legumes, frutas, carnes ou qualquer comida com textura diferente”, explica. Ele também pontua medo de provar algo novo, baixo apetite e problemas sensoriais, comuns em quem tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A pressão da família para comer, o hábito de fazer comida separada só para a criança e o uso de telas durante a refeição também contribuem para dificuldades alimentares.
“No Brasil, existe ainda o problema do excesso de ultraprocessados de baixo custo, que viram a base da alimentação em muitas casas, especialmente em famílias com menos recursos”, alerta Fabiano. Assim, o médico chama atenção para um cenário em que, além da seletividade, existe também a obesidade infantil ou a chamada “fome oculta”: falta de nutrientes, mesmo comendo bastante.
Riscos à saúde
Uma alimentação pobre em nutrientes na infância, seja pela seletividade, pouca variedade de alimentos ou excesso de ultraprocessados, pode causar impactos sérios. A criança pode ter anemia, deficiência de zinco e de vitaminas, problemas no intestino, crescimento mais lento e baixo peso, ou até mesmo obesidade. “A longo prazo, o cérebro não se desenvolve completamente, havendo dificuldades de aprendizado, atenção, memória; maior risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, pressão alta e colesterol ruim já na adolescência; e problemas emocionais e maior risco de distúrbios alimentares”, complementa Fabiano.
O que fazer?
Para contornar essa situação, o pediatra dá algumas dicas para os pais. Em primeiro lugar, ele chama atenção para a criação de um bom clima na mesa durante as refeições. “Sem briga e sem chantagens como ‘come para ganhar sobremesa’. Aposte em refeições em família, sem celular ou TV, em horários mais ou menos fixos. Respeite a fome da criança, não force colherada, deixe ela decidir o quanto come. Pode oferecer, mas sem obrigar”, aconselha Fabiano.
O professor também recomenda apresentar o mesmo alimento várias vezes para a criança, mas sempre de formas diferentes: cru, cozido, assado, em formatos divertidos ou misturado com outros alimentos que a criança goste. Outra dica é envolver a criança, desde a compra dos alimentos até a preparação. “Seja o exemplo: coma junto e mostre que você curte variar. Evite fazer pratos separados, sirva a mesma comida para todo mundo”, acrescenta. Estimular a curiosidade e apostar em atividades lúdicas também ajuda em casos de problemas com texturas.
“Se a seletividade for leve, a maioria melhora sozinha com o tempo e paciência. Mas se tiver perda de peso, anemia, recusa total ou impacto na vida social ou escolar, é importante uma consulta com um pediatra e um nutricionista infantil. Caso haja suspeita de TEA ou ARFID (Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo), também vale atendimentos com fonoaudiólogo ou psicólogo”, Fabiano ressalta.